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Primeiros contos de verão

Luis Fernando Verissimo

O inspetor que investigava o caso da trapezista checa morta com uma cimitarra tinha um cachimbo permanentemente no canto da boca, mas com o fornilho virado para baixo. Dizia que era para não ter nem a tentação de enchê-lo, pois estava proibido de fumar. Mas o importante é que consultei o dicionário antes de começar a escrever este conto e só então descobri que aquela parte do cachimbo se chama fornilho, o que passei a maior parte da minha vida sem saber.

Toda literatura, no fim, é autobiográfica.


O ascensorista

"Ascende" dizia o ascensorista. Depois: "Eleva-se". "Para cima". "Para o alto". “Escalando”.

Quando perguntavam: "Sobe ou desce?", respondia:

- A primeira alternativa.

Depois dizia "Descende", "Ruma para baixo", "Cai controladamente". Ou:

- A segunda alternativa.

"Gosto de improvisar", justificava-se. Mas como toda a arte tende para o excesso, chegou ao preciosismo. Quando perguntavam "Sobe?", respondia:

- É o que veremos...

Ou então:

- Como a Virgem Maria.

- Desce?

- Dei.

Nem todo mundo o compreendia, mas alguns o instigavam. Quando comentavam que devia ser uma chatice trabalhar em elevador, ele não respondia "tem seus altos e baixos", como esperavam. Respondia, cripticamente, que era melhor que trabalhar em escala. Ou que não se importava, embora seu sonho fosse, um dia, comandar alguma coisa que andasse para os lados.

E quando ele perdeu o emprego, porque substituíram o elevador antigo do prédio por um moderno automático, daqueles que têm música ambiental, disse:

- Era só me pedirem. Eu também canto!


Amigos

Calçada. Homem com cachorro. Cachorro fazendo cocô. Passa mulher. Mulher:

- Que nojo.

Homem grita para mulher que se afasta:

- Nós somos só amigos!


Comemoração

Sete de cada lado, as mulheres assistindo. Todos com barriga e pouco fôlego. Menos o Arruda. O Arruda em grande forma. Magro, ágil, boa cabeleira. Cinquenta anos, mas conservadíssimo. E brilhando em campo.

Foi depois de o Arruda dar um passe para ele mesmo, correr lá na frente como um menino, chutar com perfeição e fazer o gol, para delírio das mulheres, que todo o time correu para abraçá-lo. Que gol! O Arruda era demais. Empilharam-se em cima do Arruda.

Apertaram o Arruda. Beijaram o Arruda. O Arruda depois diria que alguém tentara torcer o seu pé e outro mordera a sua orelha. Quando o Arruda quis se levantar para recomeçarem o jogo, não deixaram. Derrubaram o Arruda outra vez. Quando ele parecia que estava conseguindo se livrar dos companheiros, veio o time adversário e também pulou no bolo para cumprimentar o Arruda.

O Arruda acabou tendo que sair de campo, trêmulo, amparado pelas mulheres indignadas, enquanto o jogo recomeçava. Agora só com os fora de forma. Na hora do churrasco, o Arruda ainda não estava totalmente recuperado da comemoração. Para aprender.


Anti-Shakespeare

Da série “Poesia numa hora destas?!”

Ele a compararia com um dia de verão perdidamente apaixonado.

Outros parâmetros, a mesma paixão: eu a comparo com o ar-condicionado.


Domingo, 26 de dezembro de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.